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A Estrada

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  Ler é respirar e sem ar, somos nada. E gosto muito de ter ar, de ter visões, personagens e realidades a viver na minha cabeça.  Os livros são como um bom filme, ou uma música que adoramos.  Nunca esquecemos, o que nos marca. Este livro é tão intenso, com tanta emoção e desespero, que ficará para sempre. Uma estrada. Uma viagem.  Um pai e um filho, num mundo pós apocalíptico, sem nada, para além da morte. Um mundo sem esperança, onde um amor tenta sustentar a vida que resta. A forma como o autor descreve a paisagem e tudo o que os rodeia, e como isso os influencia, é tocante. Consegues sentir o desespero da fome, frio e doença sempre latente. Nas entrelinhas,  estreita-se a relação entre pai e filho, plena de emoções e de raiva. Foram duas, as pessoas que me falaram deste livro.  Uma por o achar magnifico, com o qual concordo inteiramente.  A outra, por ser o livro preferido do filho adolescente. Depois de o ler e de o sentir, só posso dizer que a vos...

Inertes

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  "Vida colorida" - Wassily Kandinsky(1907) Tenho vários ódios de estimação. Entre eles, está a falta de força.  Não falo de força física, mas da falta de foco e de ambição. Ambição em ser diferente, em ser genuíno. Em estar aberto à vida, querer mais do que já tem.  Conhecer algo diferente, provar um prato desconhecido, sentir algo inesperado, arriscar ser todos os dias um pouco mais. Ver uma pintura, assistir a um concerto, partilhar um sorriso ou um beijo.  Ser feliz, seja como seja. E esta descoberta passa por tantas partes da nossa vida, que por vezes me pergunto, como vive alguém sem força para viver? Não vive.  Gasta tempo. Aquele tempo que não volta atrás.  Tudo o que poderia ter sido, nunca será, porque nunca saem da zona de conforto, do sofá emocional e da rotina.  Vivem num micro cosmos próprio. Vão sempre aos mesmos sítios, conseguem fazer as mesmas tarefas obedientemente durante anos.  Nada é bom, tudo na vida é vivido com lamúri...

Lay Off Emocional

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Sente-se, não se entende, mas existe. É um estado emocional vazio. O passado já não pesa.  Pensar no que foi, não evita o que será. É um desprendimento, uma quebra do que doía. Deveria ser leve, reduzir o peso. Mas não. Deixou de estar, só. Desaparece a ansiedade, a culpa. Vive-se o dia a dia.  Aproveitam-se os momentos, por eles.  Amanhã pode ser diferente, ou não ser nada. Não é um mau momento. Não é um bom momento. É o que é, simplesmente. Sem grandes emoções ou entregas. Só o necessário para manter o equilíbrio. Ou desequilíbrio, quem sabe. O não já não acreditar, faz-nos viver pela metade. É o que nos resta.  Viver pela metade, para um dia ser em pleno.

Lar doce escritório

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  Nesta nova realidade, onde tudo se altera e se adapta, para reagir à circunstância, passou a ser censo comum que o teletrabalho é uma benção. Se estás em teletrabalho, andas o dia todo à boa vida.  Fazes o que queres e tal. Nada te afecta. Pois é, meus amigos, mas só quem passa por isso sabe, o quão pode ser complicado de gerir. Primeiro perdemos as rotinas.  A hora de acordar, invariavelmente cedo, a viagem até ao local do castigo e o castigo em si, durante as horas destinadas, na sentença que se chama contrato de trabalho.  Era uma rotina chata, que fazíamos por obrigação. Deixámos de a ter e nunca pensei sentir a falta.  Agora acordamos 10 minutos antes do log in, ou meia hora para ainda beber um café. Se não desperdiçamos tempo em viagem, podemos dormir mais, tomar banho quando nos der jeito.  Pentear o cabelo para reunião em video chamada, porque ficava mal o estilo desgrenhada. Sim, ninguém nos vê. O que não significa que seja sempre tão libertador ...

Losers

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  Porque se apaixonam as pessoas? Apaixonamo-nos por aquilo que é bom em alguém.  Por um olhar, uma forma de estar, uma concordância dos astros.  Por tudo e por nada. Mesmo que sejam só os nossos olhos, que vêm o que mais ninguém vê. Tentamos ver coisas onde não estão, ou talvez sim, quem sabe. A paixão usa lentes cor de rosa.  Por vezes os tons combinam. Mas por vezes, não. A forma como se reage à rejeição é diferente, dependendo da relação anterior.  Do tempo de convivência, da partilha de emoções, e da forma como se relacionam. Se era light, é só um mudar de ares e a coisa passa. Se a amizade está em jogo, entra a maturidade e a estabilidade emocional.  Mas se não estão presentes, a coisa complica-se.  A rejeição é frustante. É cruel, voraz. Capaz de matar tudo à sua volta. E aí perdem-se afetos. Toda a ligação que antecedeu, acaba por deixar de fazer sentido.  A raiva absorve o que era bom.  Se partilhavam conversas ou pensamentos, se dis...

Hoje

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  Hoje nada mudou, e tudo ficou diferente. Já não espero por ti, mas continuas a ser tu. Estás presente, quando deverias estar esquecido. Nos sonhos, na vida e na recordações. O sentimento mantém-se, como um espinho na carne. Mas vida segue e não espera. Nem por ti, nem por ninguém. Hoje sei que mereço tudo, e tu nada tens para me dar.

O Outro

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  O outro, são os que sobram. São o vizinho, o padeiro ou o desconhecido, com quem nos cruzamos.  O idoso que diz bom dia, o polícia que nos multa, a pessoa que segura a porta do elevador, quando estamos com pressa.  Podem ser estranhos ou íntimos, mas nunca deixam de ser algo exterior. Quantas vezes um amigo, um amante ou um familiar, se tornam algo distante de nós próprios. O eu prevalece sempre, perante o que é mutável. Mas também prevalece, quando se mantém.  Viramos a cara ao problema não é nosso. Fugimos porque não temos nada a ver com o assunto, ou limpamos a água do capote, porque não nos diz respeito. Sermos nós, inclui sempre todos os outros.  Não somos eremitas, nem somos imunes ao que nos rodeia. Talvez não sobrem, os tais outros, mas adicionem. Da próxima vez que pensarem no outro, de uma forma alheia e desprendida, quase egoísta, pensem que o outro também somos nós.